Praça da Sé

O sol, que já as 7h da manhã queima como se fosse de meio-dia, faz suar a fronte das pessoas recém-saídas de casa, que se amontoam a espera do ônibus. È segunda-feira, início da rotina cotidiana das grandes metrópoles. Ônibus lotados, com destinos diversos se sucedem. As pessoas também. O constante vai-e-vem dá o ritmo do frenesi da grande cidade.

Para alguns, o caminho é demasiado longo, quase uma viagem. Muita gente gaste, talvez, tempo até maior do que pode dedicar diariamente a própria família. É o caso de muitos dos passageiros do Vilas do Atlântico x Praça da Sé,  que sai de Lauro de Freitas, na região metropolitana, com pouco mais de uma dúzia de pessoas. É tanto espaço, tanto frescor, quase um dia de domingo. Até mesmo o cobrador, se dá o luxo de sentar ao lado do motorista, para só cobrar os passageiros posteriormente, quando chega a Salvador: é só atravessar os limites soteropolitanos para que suba gente aos montes.

Rapidamente o ônibus tem sua lotação esgotada, rememorando aos seus usuários que o dia só se aparentava com o agradável domingo, no sol que agora incomoda. A sensação é desagradável, como define a senhora Mariza Andrade, “a gente parece sardinha enlatada”, lamenta, afirmando que, quando vai em pé, já chega nervosa ao trabalho.

Os ônibus são mais que um meio de locomoção, são os locais em que os passageiros podem tentar se desligar do cotidiano frenético. Só dá pra escapar do desconforto geral dentro do ônibus quem realmente concentra-se em si mesmo. Alguns, em pé, até tentam, lendo um livro com uma mão e se segurando com outra, ou de modo mais fácil: ouvindo música. Mariza, que trabalha longe de casa e não possui carro, elabora estratégias para aproveitar a viagem: algo entre ler, ouvir música, dormir. Já Marília Ferreira, 37, aproveita as quase três horas diárias no ônibus para refletir. É o tempo que “sobra” na correria cotidiana.

O cobrador da linha, Lucas Santos, 37, também afirma que não pegaria ônibus se tivesse outra opção. Depois de ser assaltado quatro vezes, nos quatro anos que trabalha como cobrador, ele se sente tenso durante todo o percurso e, diz que não sabe como as pessoas conseguem dormir durante o caminho. “Não consigo relaxar no ônibus”, confessa ao dizer que se sente assustado com a falta de segurança no transporte público.

Apesar da lotação do ônibus, este segue em absoluto silêncio, interrompido vez ou outra por algum passageiro pedindo informações ou por encontros de conhecidos.  Ainda que sentem juntas, quando em bancos duplos, as pessoas mal se olham. A estudante de direito, Aline da Rocha, 26, esclarece que esta impessoalidade se dá muitas vezes por falta de identificação e conhecimento entre os passageiros, “são sempre pessoas diferentes”, conclui. É uma realidade diferente da que vive o cobrador, na qual, segundo ele, fazer amigos é a melhor parte do trabalho. “É o que mais gosto de fazer aqui”, enfatiza.

E é assim, que milhares soteropolitanos convivem diariamente, num microcosmo particular que transpassa sua função principal de meio de transporte para parte integrante do cotidiano de seus passageiros. Algum dia se espera, o ônibus parecerá todos os dias com o de Domingo, e seus usuários poderão sem susto, conversar entre si e relaxar enquanto aguardam seu ponto de destino.

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