Campo Grande R1

O início da manhã é o período do dia em que as pequenas crianças invadem os ônibus de toda a cidade de Salvador para irem às suas aulas. Sempre gentis com os motoristas, “bom dia, ‘motô’” é o lema destas crianças, que entram pela porta da frente, com suas mochilas enormes, sobre ombros e costas tão diminutos, a partir do Conjunto Marback e da Boca do Rio. O início da manhã também é horário de aperto, suor e muita irritação nos ônibus. Gente que queria estar dormindo tem de ir à aula ou ao trabalho, e é obrigada a se juntar a desconhecidos em espaços quentes e reduzidos demais para o número de pessoas que precisam dele para se locomover na metrópole.

Este pedaço da manhã, o início do dia para muitos moradores de Salvador, apesar das crianças gentis, não é o melhor momento pelo qual as pessoas esperam passar. Certamente não é a melhor ocasião para se relacionar com outras pessoas. Minutos antes de subir no “buzu”, no entanto, muitas pessoas têm a primeira conversa do dia esperando por eles: os vendedores de café da manhã são a primeira companhia de boa parte do povo soteropolitano.

A noite nos ônibus é diferente. Depois dos engarrafamentos da hora do rush, que deixam os interiores dos ônibus parecidos com o que há de manhã, a noite se transforma. Mesmo sem as crianças gentis, é possível encontrar muito mais gentileza, companheirismo e amizade neste horário. A noite é feita de nuances de sono e de amizade. Enquanto muita gente segue viagem cochilando até seu ponto, cobradores e motoristas – mesmo cansados pela desgastante rotina de idas e vindas pelo mesmo caminho – costumam conversar muito na noite.

Ao menos na linha Rio das Pedras-Campo Grande R1, é comum ver os cobradores se dirigirem aos primeiros assentos do veículo, para bater um papo animado com seu companheiro de linha. Também acontece de a conversa acontecer sem que o cobrador deixe seu posto. E quando amigos deles estão dentro do ônibus? A noite é uma facilitadora para os amigos: quando vai ficando tarde e não há movimento nas ruas, não é raro ver motoristas pararem fora dos pontos, para apanhar e deixar os mais chegados. Se, como afirma Michel De Certeau, caminhar pela cidade é uma forma de produzir enunciados e novas (ou repetidas) formas de ver o mundo, o que fazem os motoristas é produzir novos enunciados, ao subverter, de alguma forma, o fluxo de que faz parte de seu trabalho, é a forma de esquecer-se da rotina, que significa passar, diariamente pelos mesmos lugares, no mesmo fluxo.

Dentro e fora do ônibus: passageiros

Passageiro, segundo o dicionário Michaelis, pode significar: “o que passa depressa, que dura pouco; transitório, efêmero”, “de pouca importância” ou ainda “o que vai de passagem em qualquer veículo de transporte terrestre, marítimo ou aéreo; viajante. algo que passa, que é transitório.” Afinal, falamos do passageiro que está passando, ativamente, ou do que está sendo deixado para trás? De dentro do ônibus, as pessoas não conseguem formar uma imagem detalhada dos lugares pelos quais passam. São borrões, leves pinceladas do que cada lugar é, em sua totalidade transitória: nossas idéias sobre a cidade são muitas vezes formadas por impressões constituídas a partir de borrões seqüenciados. Os elementos vão ficando para trás, como se uma nave fosse cruzando o espaço e deixando os corpos celestes para trás. Andar de carro ou de ônibus amplia a sensação de hic et nunc das situações cotidianas: se algo acaba por chamar a atenção, logo é passado. Qual o tipo de relação que se desenvolve com a cidade, desta maneira?

É por essas e por outras que Albano Moura, estudante de jornalismo, prefere andar a pé. Para ele, as nuances das cidades, suas pessoas e sua arquitetura, só podem ser conferidas de verdade por quem anda em seu próprio ritmo, bem pertinho das coisas. “Cara, hoje em dia a arquitetura das cidades é feita para quem anda de carro. Muros altos, prédios altos, sem muitos detalhes, nada feito para observar, mas para separar o que está dentro ou fora”, lamenta. Albano também identifica alguns problemas para quem gosta de andar a pé e deleitar-se com as paisagens urbanas em Salvador: a falta de praças e a insegurança das ruas. “Infelizmente muitos lugares da cidade são perigosos para andar, sobretudo no Centro, onde eu gosto mais de passear. Por sorte, moro em um lugar onde ainda tem um pouco disso”.

Fabíola Queiroz, estudante de administração, conta que, embora goste de andar em lugares próximos de sua casa, não costuma andar em outros lugares e se movimenta de ônibus. Para ela, pegar ônibus é muito bom, porque diminui as chances de se perder. “Basta olhar no Google Maps onde fica o lugar que você quer ir e ver se o ônibus passa perto de lá e pronto!” comemora, com um sorriso largo e expressão sagaz. Ela trabalhava no aeroporto, e, todos os dias, fazia um longo trajeto até a Pituba. Durantes os meses em que prestava serviços ao aeroporto, ela jura ter feito algumas amizades no ônibus, embora confesse que não eram das amizades mais profundas. “Eu sei que nesse mundo de hoje a gente não pode dizer onde mora pra desconhecidos, mas, mesmo assim, eu fiz alguns amigos nesse trajeto”, afirma.

Descobrindo a cidade: meios e fins

Apesar de a cidade vista através do ônibus parecer um grande borrão, este veículo também é lugar para descobertas. Até mesmo para gente que era acostumada a andar a pé em tempos menos atribulados da cidade, que já morou no Subúrbio Ferroviário e pegava duas conduções para trabalhar – um trem e um ônibus – e que já teve um carro próprio, como é o caso do vendedor Manoel Santana.

Seu Manoel comprou uma nova casa, mas nem tudo foi só felicidade: ele passou por uns “perrengues” e teve de vender seu carro. Com isso, voltou a pegar ônibus, coisa que não fazia há algum tempo, e, segundo ele, pôde observar algumas nuances da cidade, que lhes passavam despercebidas. “Como tinha me mudado, comecei a pegar outra linha, por um lugar que eu só conhecia de carro. No ônibus, eu vi alguns detalhes da cidade que eu nem prestava atenção quando passava com o carro”. Porém, seu Manoel não faz questão de saber o que tem nas ruas próximas das que o ônibus passa. “Ah, meu filho… mas pra que eu vou lá [para esses lugares desconhecidos]? Não tenho nada pra fazer lá. E, sem conhecer nada, é capaz até de ser assaltado, do jeito que esse mundo anda”.

Salvador, como toda metrópole, tem habitantes que só conhecem a cidade a partir dos meios de transporte e que nem mesmo colocaram os pés por onde seus ônibus passam. Jurandir Lopes, que veio de Ipiaú para Salvador, para estudar História, sente muita falta de sua cidade, justamente por ter contato com o chão de sua terra. “Aqui em Salvador é muito ruim pra mim, já que eu moro muito longe de eu estudo. Assim, eu quase nunca ando por onde eu passo de ônibus. Não me sinto em casa. Como se sentir em casa sem pisar no chão?”.

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